terça-feira, 16 de julho de 2013

10- Apresentação



              


      
Tudo aquilo estava longe da sua cabeça ao ver Logan tocando piano. Não sabia o que esperar. Quantas pessoas estudaram piano? Quantas pessoas alegaram tocar bem? Não levou muito tempo para perceber a habilidade excepcional de Logan, muito acima do que estava esperando. Seus dedos deslizavam pelo teclado e seus movimentos eram fluidos; nem parecia olhar para a partitura a sua frente. Enquanto Nana cantava, porém, sua atenção estava voltada para ela, ao mesmo tempo em que mantinha ritmo e andamento perfeitos.
                Estava muito mais interessado na atuação dela do que em sua própria.
                Enquanto ele continuava tocando, ela pensava na história que Nana havia lhe contado no carro. Dispersou-se do culto para relembrar as suas conversas com Logan, da sensação que o abraço dele lhe transmitia, da sua maneira natural de conviver com Ben. Sabia que havia muita coisa desconhecida sobre ele ainda, mas tinha uma certeza: Logan a completava de uma forma que jamais havia considerado possível. Saber os fatos não era o mais importante, disse a si mesma, pois sabia, usando as palavras da sua avó, que ele era o pão da sua manteiga.
                Depois do culto, Beth ficou observando de longe, divertindo-se com o fato de que Logan estava sendo tratado como celebridade. Tudo bem que se tratava de uma celebridade cujos fãs eram todos dependentes da Previdência Social, mas, pelo que podia perceber, ele parecia ao mesmo tempo orgulhoso e envergonhado pela atenção inesperada.
                Ao olhar para ela, viu que em seu olhar havia um silencioso pedido de resgate. Mas tudo o que ela fez foi sorrir e dar de ombros. Não queria interferir.
                Quando o pastor veio agradecer-lhe novamente, sugeriu que Logan poderia continuar tocando mesmo depois que Abigail se recuperasse do pulso quebrado.
                — Tenho certeza de que vamos encontrar uma solução — disse o pastor.
                Ficou mais surpresa ainda quando vovô, com Ben ao seu lado, passou no meio da multidão para cumprimentá-lo. Ao longe viu que Keith tinha uma expressão que demonstrava um misto de raiva e repulsa.
                — Bom trabalho, meu jovem — vovô estendeu a mão. — Toca como quem foi abençoado.
                Pela expressão de Logan, deu para ver que ele reconheceu seu interlocutor, apesar de que Beth não fizesse a menor idéia de como sabia quem ele era. Ele apertou a mão de vovô.
                — Obrigado, senhor.
                — Ele trabalha no canil com Nana. E acho que ele e a mamãe estão namorando.

                Diante disso, fez-se um silêncio por entre a multidão de admiradores, quebrado apenas por algumas pessoas tossindo de embaraço.
                Vovô olhou para Logan, mas ela não percebeu nada de diferente em sua expressão.
                — É verdade? — perguntou vovô.
                — Sim, senhor — respondeu Logan.
                Vovô não disse nada.
                — Ele também foi fuzileiro naval — disse Ben, sem se dar conta das correntes sociais que se alvoroçavam ao seu redor.
                Vovô pareceu surpreso, e Logan concordou com a cabeça.
                — Servi no Quinto Batalhão, do Quinto Regimento, baseado em Pendleton, senhor.
                Depois de uma longa pausa, vovô balançou a cabeça.
                — Então, obrigado pelo serviço prestado ao nosso país também. Você fez um trabalho maravilhoso hoje.
                — Obrigado, senhor — disse novamente.
                — Você foi tão educado — disse Beth quando voltavam para casa.
                Não comentou nada até Nana estar longe o suficiente para não poder ouvir. Lá fora, a grama começava a se transformar em um lago, e a chuva não parava de cair. Passaram para pegar Zeus no caminho de volta e ele agora dormia aos seus pés.
                — E por que não seria?
                Ela fez uma careta.
                — Você sabe por quê.
                — Ele não é o seu ex — deu de ombros. — Duvido que saiba o que seu ex anda aprontando. Por quê? Você acha que deveria ter contado a ele?
                — De forma alguma.
                — Também achei que não. Mas olhei para seu ex quando estava falando com o avô dele e ele estava com cara de quem comeu e não gostou.

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